
O MPL e os demais movimentos, com as manifestações e a respectiva repercussão, trouxeram a questão dos transportes coletivos para onde deve se situar, ou seja, no campo da política
11/06/2013
Lúcio Gregori,
As manifestações promovidas pelo MPL e diversos outros movimentos e setores da sociedade civil contra o aumento das passagens dos transportes coletivos em São Paulo precisam ser entendidas em todos os seus aspectos.
Não se tratou de uma manifestação pontual contra o recente aumento das tarifas, que foram reajustadas abaixo da inflação por fator conjuntural e não por uma política tarifária permanente.
Foi uma manifestação para trazer à tona a discussão sobre a política de transportes públicos em geral e, particularmente, sobre a política tarifária, como se depreende das palavras de ordem e das entrevistas dos manifestantes.
Não se tratou de uma manifestação de jovens estudantes e de não trabalhadores, e/ou de pseudo -revolucionários com atitudes de vandalismo, numa postura de contestação a tudo que é autoridade ou instituição. Essa é uma versão, uma narrativa, de quem quer, por qualquer razão, desqualificar o acontecimento.
O MPL e os demais movimentos, com as manifestações e a respectiva repercussão, trouxeram a questão dos transportes coletivos para onde deve se situar, ou seja, no campo da política. E, nesse campo, o financiamento da tarifa como questão central para efetivamente tornar o transporte público e de acesso universal, bem como torná-lo competitivo com os modos individuais motorizados, que respondem pelos insuportáveis congestionamentos na cidade. Congestionamentos cotidianos e sistemáticos, e não como o eventualmente provocado pela manifestação, este sim pontual.
Numa democracia são legítimas as disputas políticas pelos recursos do Estado, e as manifestações nada mais estão fazendo do que disputar mais recursos para o financiamento da tarifa e, no limite, o subsídio total, a tarifa zero, como acontece na saúde, na educação e na segurança públicas.
O momento político é riquíssimo a partir das manifestações. Se houver uma conjugação de pressão, debate e propostas, poderá transformar definitivamente a questão da mobilidade urbana, tirando-a do cantinho das propostas técnicas de BRTs, VLTs, MONORAILs ou propostas associadas a megaeventos, para trazê-la para o campo da política e das políticas públicas, retomando a questão da participação popular nas decisões.
As manifestações abrem espaço para reflexão e ações políticas. Ações como o estabelecimento de políticas permanentes de forte financiamento das tarifas, aí incluídas reformas tributárias nos vários níveis de governo; a inclusão dos transportes coletivos urbanos e metropolitanos como direito social no artigo sexto da Constituição Federal; até um novo entendimento sobre a participação popular e democracia direta.
Reflexão que não pode deixar de ser feita é que, por incrível que pareça ou não tanto, quem está abrindo essa fantástica discussão são jovens de todas as idades, que estão formulando uma pauta política, quando se procura desqualificá-los seja pela questão da maioridade penal, seja por não serem “ trabalhadores”, seja por não se atrelarem aos padrões clássicos de hierarquização ou de organizações partidárias de esquerda ou direita, como nas tradicionais disputas de poder.
As autoridades devem, sim, dialogar e debater com os movimentos, aprendendo com eles os novos caminhos possíveis, pois não se faz isso apenas na época de eleições mas, sobretudo, no exercício do poder.
Lúcio Gregori é engenheiro e ex-secretário de Transportes da cidade de São Paulo (1990-1992).
Comentários
Errou feio...
Errou, meu amigo, e errou feio... Não percebeu que as manifestações NÃO SÃO APENAS POR CAUSA DA TARIFA DOS TRANSPORTES. A questão é bem mais profunda, e precisa de um outro tipo de análise. Há uma composição de forças, que estão se alinhando de forma mais ou menos organizada, como uma sinergia... Várias bandeiras de luta de grupos pequenos que estão se unindo mais e mais. Linhas de força que convergem e fazem emergir esta situação. Não há apenas um líder... E esta é a principal força do movimento. Há milhares de líderes com câmeras, celulares e uma ferramenta incrível de mobilização: as redes sociais. Há uma composição de idéias que foram catalisadas por dois fatos concretos: 1) A inabilidade do Estado e Prefeitura de São Paulo (e de outros locais também) em ouvir os clamores populares, e a consequente reação violenta contra os manifestantes na Paulista semana passada. 2) A Copa das Confederações e seus gastos abusivos, enquanto a Saúde, a Educação e Infra-Estrutura do país estão às minguas. E pouco se faz desde o fim do Regime Militar para se melhorar esta situação. Os que compõe força no movimento são grupos pacíficos (em sua esmagadora maioria), juntamente com grupos não pacíficos (alimentados pela contra reação mais e mais violenta da polícia - como foi o caso de BH e Porto Alegre). São jovens de classe média, mas também jovens pobres. São jovens de esquerda e de direita. Do PT e do PSDB. Tradicionais e progressistas. São católicos, ateus e protestantes... São gays e heteros... São punks, skatistas, ciclistas e de todas as tribos urbanas. São jovens de TODOS, absolutamente TODOS os seguimentos sociais e grupos culturais do país. E isto é IMPRESSIONANTE. Eu estava ontem no protesto em Curitiba e vi! Falei também com gente de todo país, e onde as manifestações ocorreram não foi diferente.Os jovens estão questionando as instituições que podem realmente fazer alguma mudança. E não estão pra brincadeira. QUerem MESMO ser ouvidos. Vejam os locas simbólicos que foram atacados: invasão do Congresso Nacional; invasão e depredação da Assembleia Legislativa do Rio; invasão do Palácio do Governo de São Paulo; tentativa de invasão do Palácio Iguaçu em Curitiba... Reação forte e agressiva contra a Globo e demais meios de Comunicação. Todas instituições que são capazes de dar voz (e nunca deram) e de decidir por mudanças... Isso é sério... E é um GRITO. Além disso, há o questionamento forte com relação aos gastos da Copa (Estádio de Brasília e de BH). Se não se der voz na mesa de negociação onde as mudanças podem acontecer (Congresso Nacional, Presidência da República, Governos estaduais e municipais...), se não se der voz na grande mídia, estes protestos tem sim o potencial para ficarem MAIORES e NÃO CESSAREM TÃO CEDO. A Sinergia é grande. Os jovens estão conclamando ajuda do exterior e começam a compor força com a meninada protagonista da Primavera Árabe (que já não é só árabe...). A Rede social dá um poder de articulação a esses jovens que outras gerações não tiveram. Segue abaixo um vídeo, amplamente difundido no Exterior (mais de um milhão de acessos até agora), e que resume bem o clamor destes jovens.Em minha opinião (não sou cientista politico, hehehe!!! É só uma opinião de um padreco que escutou a meninada ontem!), será realmente preciso:1) Escutar essa galera, criando meios institucionais eficazes para dar voz aos clamores populares; 2) Apressar a reforma política do país;3) Apressar a reforma tributária;4) Colocar realmente na agenda a mudança no sistema educacional, de saúde e de infra-estrutura nacional; 5) Mudança no sistema de transporte das grandes metropoles do país;6) Reforma ética dos grandes meios de comunicação social; 7) Reforma ética da política brasileira, pelo fim imediato da corrupção.Não sei quanto aos outros, mas de minha parte é isso que tenho pensado. Isso é bem mais do que por R$0,20 em passagens de ônibus... É um grito por grandes reformas institucionais no Brasil. Como eles mesmos dizem: “O gigante acordou”. E se não for escutado, não sei onde isso pode parar. Como os jovens mesmo gritavam ontem pelas ruas de Curitiba: “É só o começo”.
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